Posicionamento dos e das estudantes de História da UFPR sobre o busto de Suplicy de Lacerda

Ao escrevermos a História, lidamos o tempo todo com escolhas. Escolhemos um objeto de pesquisa, um tipo de fonte, uma metodologia e referenciais teóricos. E sempre que escolhemos, deixamos outras opções de lado. E o que nos influencia nessas escolhas? É a nossa afinidade com determinada vertente intelectual, nossas vivências pessoais, posicionamentos políticos e a nossa curiosidade. Portanto, não existe neutralidade na História, sempre partimos de um ponto específico dentro de inúmeros outros possíveis para trabalhá-la. Deste modo, a maneira como escrevemos História afeta como as pessoas a leem, assim como a Memória que irão constituir, ou seja, nossas escolhas como historiadoras e historiadores estão carregadas de responsabilidade para com a sociedade, pois terão um significado no seu imaginário político. Sim, a História e a Memória são instituições políticas e sempre foram utilizadas para os mais diversos fins, muitas vezes buscando legitimar sistemas opressores de poder. Nós, estudantes de História, acreditamos que nosso papel social tem como objetivo ajudar na construção de uma formação cidadã; livre de opressões e que confronte a Memória e as políticas impostas pelo Estado. Deste modo, acreditamos que a Memória de Flávio Suplicy de Lacerda precisa ser questionada e problematizada.

Não é sem motivos que o busto de Flávio Suplicy de Lacerda foi arrancado pelo Movimento Estudantil duas vezes. A primeira, em 1968, foi em resposta à ameaça do início da privatização do ensino público e ao acordo MEC-USAID. Em 2014, durante a “descomemoração” dos 50 anos do Golpe Civil-Militar que colocou o Brasil em uma ditadura que duraria duas décadas, viu-se necessário que o ato político de arrancar o busto de Suplicy ocorresse novamente, para lembrar e questionar quem são os personagens lembrados e glorificados pela UFPR, e qual história busca-se apagar. Durante a negociação entre o Movimento Estudantil e a Universidade Federal do Paraná para a devolução do busto, foi proposto que ele ficasse sob responsabilidade da Comissão da Verdade, para que fizesse parte de um museu de memórias da ditadura na UFPR ou que fosse recolocado no mesmo local, mas que então fosse também colocada uma placa contextualizando transeuntes quem de fato foi Suplicy de Lacerda: um braço da ditadura dentro da universidade. A UFPR aceitou que fosse seguida uma das propostas no momento da devolução, mas sem cumprir com o acordo, irá recolocá-lo no seu lugar sem os devidos questionamentos.

Vivemos em um momento de retomada de exaltação dos acontecimentos e personagens da ditadura. Assistimos a políticos como Jair Bolsonaro elogiar Carlos Alberto Brilhante Ustra durante a votação do Impeachment da Presidenta na Câmara dos Deputados. Ustra foi chefe do DOI-CODI, principal órgão de repressão política durante a ditadura, e também foi reconhecido pela Comissão Nacional da Verdade como torturador de inúmeros presos políticos. Nesse sentido, os movimentos sociais e políticos encontram-se em alerta perante as ameaças de criminalização que vem sofrendo. Presenciamos hoje tristes episódios de perseguição e intolerância contra grupos e instituições que se propõe a pensar e agir de forma contrária ao que a burguesia, a mídia monopolizada, o patriarcado, a bancada da bíblia, do boi e da bala propõem.

Também devemos lembrar que o busto foi restaurado após ser removido em 2014. Isso acarreta duas discussões distintas. A primeira gira em torno da utilização (desnecessária e de questionável alinhamento com os interesses da comunidade) da verba da Universidade. Se as terceirizadas não recebem salários, a pós-graduação e os programas de pesquisa têm sofrido vários cortes, por que gastar dinheiro reformando essa escultura? O segundo questionamento que pode ser feito parte do movimento que foi feito em 2014 para que o busto fosse retirado. Toda a mobilização estudantil, todas as justificativas para a remoção dele, foram simplesmente ignoradas e encobertas com novas camadas de tinta. Não há porque sustentar a recolocação do busto em seu lugar de origem se for para silenciar toda a Memória do movimento estudantil. A restauração apagou a História do busto, recolocá-lo no mesmo lugar fará com que seja apenas isso, um busto sem os devidos questionamentos. Como era antes.

É importante ressaltar que nosso objetivo não é negar um passado que faz parte da história da universidade, mas sim questionar a forma como ele tem sido lembrado no espaço da UFPR. A exposição de um monumento como o busto do ex-ministro da educação e ex-reitor Suplicy de Lacerda sem uma inscrição crítica adequada reproduz a exaltação da memória dos “grandes heróis da nação”, em geral homens com grandes poderes políticos – discurso tão conhecido na produção da história oficial, dita neutra e apartidária, mas que encobre as ideologias opressoras e principalmente promove o sucateamento da história dos movimentos sociais de resistência à repressão. É notável o descaso nacional com as memórias sobre o período da ditadura militar no Brasil, esquecimento em parte proporcionado pela reprodução massificada da história oficial, tão criticada em debates universitários que poucas vezes avançam para além da sala de aula.

Entendemos que a história não é mera escrita inexpressiva, desvinculada das realidades e ideologias do nosso presente. Não é possível considerar o busto de Suplicy um simples monumento sem significado político. A ameaça ao acesso gratuito à educação superior e a repressão e criminalização aos movimentos sociais não morreram com a ditadura, mas continuam sendo fantasmas bastante presentes. Desconsiderar o histórico de repressão do ex-reitor e a história do próprio busto como símbolo de resistência dos movimentos estudantis é um desrespeito não só para com a memória desses movimentos, mas também com toda a nossa comunidade. Como historiadoras e historiadores, acreditamos que seja nosso dever levar esse debate a toda a comunidade universitária, buscando entender o passado deste busto e deixar que a decisão do que será feito com ele seja tomada da maneira mais aberta e democrática possível.

Assembleia dos estudantes de História da Universidade Federal do Paraná
9 de maio de 2016

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